Leitura: "No meio de vós, Eu sou como quem serve" (Lucas 22.27).

 

No Evangelho de João, temos a vida interior de nosso Senhor exposta a nós. Jesus ali fala frequentemente de Seu relacionamento com o Pai, dos motivos pelos quais Ele é guiado, de Sua consciência do poder e espírito nos quais Ele atua. Ainda que a palavra "humilde" não apareça, não há qualquer outro lugar nas Escrituras onde vemos tão claramente em que consistia Sua humildade. Já disse­mos que essa graça, na verdade, nada é senão o simples consentimento da criatura em permitir que Deus seja tudo, em virtude de entregar-se exclusivamente a Sua operação. Em Jesus, veremos que, tanto como Filho de Deus nos céus como homem na terra, Ele tomou o lugar de total subordinação e deu a Deus a honra e a glória que Lhe são devidas. E o que Ele ensinou tão frequentemente tornou-se verdade para Ele mesmo: "Quem a si mesmo se humilhar será exal­tado" (Mt 23.12). Como está escrito: "A Si mesmo se humilhou (...) pelo que também Deus O exaltou so­bremaneira" (Fp 2.8, 9).

 

Ouça as palavras em que o Senhor fala de Seu relacionamento com o Pai, e veja como incessante­mente Ele usa as palavras "não" e "nada" para refe-rir-se a Ele mesmo. O "não eu", no qual Paulo ex­pressa sua relação com Cristo, é o mesmo espírito no qual Cristo fala de Sua relação com o Pai.

 

"O Filho nada pode fazer de Si mesmo" (Jo 5.19).

 

"Eu nada posso fazer de Mim mesmo (...).

 

O Meu juízo é justo, porque não procuro a Minha pró­pria vontade" (v. 30).

 

"Não aceito glória que vem dos homens" (v. 41).

 

"Eu desci do céu, não para fazer a Minha pró­pria vontade" (6.38).

 

"O Meu ensino não é Meu" (7.16).

 

"Não vim de Mim mesmo" (v. 28 - RC).

 

"Nada faço por Mim mesmo" (8.28).

 

"Não vim de Mim mesmo, mas Ele Me enviou"(8.42 - RC).

 

"Eu não procuro a Minha própria glória" (v. 50).

 

"As palavras que Eu vos digo, não as digo por Mim mesmo" (14.10).

 

"A palavra que estais ouvindo não é Minha" (v. 24).

 

Essas palavras abrem para nós as raízes mais profundas da vida e da obra de Cristo. Elas nos fa­lam como foi que o Deus Todo-Poderoso pôde tra­balhar Sua maravilhosa obra de redenção por meio Dele, Cristo.

 

Elas mostram o que Cristo considerou como o estado de coração que Lhe cabia como o Filho do Pai. Elas nos ensinam o que são a natureza e vida essenciais dessa redenção que Cristo cum­priu e agora transmite. É isto: Ele não era nada para que Deus fosse tudo. Ele renunciou a Si mesmo totalmente, com Sua vontade e Suas forças, para que o Pai trabalhasse Nele. De Seu próprio poder, Sua própria vontade, Sua própria glória, de toda a Sua missão com todas as Suas obras e Seu ensinamento — de tudo isso, Ele disse: "Não sou Eu, não sou nada. Eu Me dei totalmente ao Pai para trabalhar; não sou nada, o Pai é tudo".

 

Cristo descobriu que essa vida de total abnega­ção, de absoluta submissão e dependência da vontade do Pai era uma vida de perfeita paz e alegria. Ele não perdeu nada dando tudo para Deus. Deus honrou Sua confiança e fez tudo para Ele, e, então, O exaltou à Sua mão direita em glória. E porque Cristo se humi­lhou assim diante de Deus, e Deus estava sempre diante Dele, Ele achou possível humilhar-se diante dos homens também e ser o Servo de todos. Sua humildade era simplesmente o entregar a Si mesmo a Deus para permitir que Deus fizesse Nele o que O agradasse, não importando o que os homens à Sua volta dissessem Dele ou fizessem a Ele.

 

É nesse estado de mente, nesse espírito e dis­posição, que a redenção de Cristo tem sua virtude e eficácia. É para trazer-nos para essa disposição que somos feitos participantes de Cristo. Esta é a verda­deira abnegação, para a qual nosso Salvador nos cha­ma: o reconhecimento de que o ego não tem nada de bom em si mesmo, exceto como um recipiente vazio que Deus tem de preencher, e de que sua pretensão de ser ou fazer qualquer coisa não deve, nem por um momento, ser permitida. É nisto, acima e antes de todas as coisas, que consiste a conformidade com Jesus: nada ser e nada fazer de nós mesmos, para que Deus seja tudo.

 

Aqui temos a raiz e natureza da verdadeira hu­mildade. Por não entender ou buscar isso é que nossa humildade é tão superficial e tão débil. Temos de aprender de Jesus, que é manso e humilde de cora­ção. Ele nos ensina onde a verdadeira humildade tem origem e acha sua força: no conhecimento de que é Deus quem opera tudo em todos, que nosso dever é render-nos a Ele em perfeita resignação e dependên­cia, em pleno consentimento de não ser e não fazer nada por nós mesmos. Esta é a vida que Cristo veio revelar e conceder: uma vida para Deus que veio através da morte para o pecado e para o ego. Se senti­mos que essa vida é elevada demais para nós e está além de nosso alcance, isso tem de nos tanger ainda mais por buscá-la Nele; o Cristo que nos habita interi­ormente vai viver essa vida, essa mansidão e essa humildade em nós. Se desejarmos ardentemente por isso, vamos, acima de todas as coisas, buscar o santo segredo do conhecimento da natureza de Deus, en­quanto Ele trabalha, a todo momento, tudo em todos: o segredo do qual toda a natureza e todas as criaturas e, sobretudo, todo filho de Deus, deve ser a testemu­nha: nada são senão um vaso, um canal, através do qual o Deus vivo pode manifestar as riquezas de Sua sabedoria, poder e bondade. A raiz de toda virtude e graça, de toda fé e adoração aceitável, é que sabemos que não temos nada que não tenhamos recebido, e reverenciamos, na mais profunda humildade, espe­rando em Deus para isso.

 

Foi porque essa humildade não era apenas um sentimento temporário despertado e trazido em exer­cício quando Ele considerava a Deus, mas era o pró­prio espírito de toda Sua vida, que Jesus era tão humil­de em Seu relacionamento com os homens como o era em Seu relacionamento com Deus. Ele se sentiu o Servo de Deus para os homens que Deus fez e amou; como uma consequência natural, Ele se considerou como o Servo dos homens para que, por meio Dele, Deus pudesse fazer Sua obra de amor. Ele nunca, nem por um momento, pensou em buscar Sua própria honra ou em usar Seu poder para vindicar a Si mes­mo. Seu espírito foi por completo o de uma vida en­tregue a Deus para Ele operar nela. Somente quando os cristãos estudarem a humildade de Jesus como a própria essência da Sua redenção, como a própria bem-aventurança da vida do Filho de Deus, como o único verdadeiro relacionamento com o Pai e, por isso, como aquilo que Jesus tem de nos dar se devemos ter parte com Ele, é que a terrível carência de real, celestial e manifesta humildade se tornará um fardo e um pesar, e só então nossa religião comum será colocada de lado para garantir isso, a primeira e principal das mar­cas do Cristo dentro de nós.

 

Irmão, você está revestido de humildade? Per­gunte ao seu viver diário. Pergunte a Jesus. Pergunte a seus amigos. Pergunte para o mundo. E comece a louvar a Deus, pois lhe foi aberta, em Jesus, uma hu­mildade celestial que você mal conheceu e, pela qual, uma bênção que você, provavelmente, jamais tenha provado, ainda poderá vir até você.

 

A visão da glória de Deus produz humildade.

As es­trelas somem quando o sol aparece.

(Thomas Watson)

 

Extraído do livro: Humildade: A Beleza da Santidade (Publicado pela Editora dos Clássicos :

www.editoradosclassicos.com.br)

 

Autor: Andrew Murray

A Humildade na vida de Jesus

Dica de Livros
O Descortinar do drama da redenção
W G. Scroggie
 

 

Com Cristo na Escola de Oração
Andrew Murray
 

 

O Ministério 
do Espírito 
A. J. Gordon