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Dica de Livros
O Descortinar do drama da redenção
W G. Scroggie
 

 

Com Cristo na Escola de Oração
Andrew Murray
 

 

O Ministério 
do Espírito 
A. J. Gordon
 

 

A Superioridade das Escrituras

Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção,para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeitoe perfeitamente habilitado para toda boa obra (2 Tm 3.16,17).

 

É comum nos determos em alguns assuntos das Escrituras enquanto evitamos outros, assim como é comum nos dedicarmos mais a alguns livros da Bíblia do que a outros. Há assuntos aos quais nos sentimos mais atraídos, de acordo com as circunstâncias e o nível de espiritualidade em que nos encontramos. É comum, sim, em parte, enquanto estamos no estágio de infância espiritual na jornada à maturidade. À medida que crescemos na fé, cada vez mais somos disciplinados pelo Espírito Santo a deixar nossas preferências para valorizarmos Seu supremo propósito. Enquanto nossas preferências normalmente são egoístas, naturais e momentâneas, a do Senhor é altruísta, centrada em Seu propósito eterno em Cristo (Ef 3.11). Deus quer que sejamos salvos e cheguemos ao pleno conhecimento da verdade (1 Tm 2.4). Por isso, é necessário trilharmos o caminho da maturidade cristã, sendo responsáveis com a verdade como um todo, para não nos perdermos, como meninos agitados pelos ventos de doutrinas, na periferia dos detalhes, desconectando-os do seu foco central (Ef 4.13-15).

 

Não Anular as Escrituras com Assuntos das Escrituras

 

Satanás é astuto em nos apresentar pontos das Escrituras separados do seu pensamento central. Ele tentou nosso Senhor no deserto apresentando partes da Palavra de Deus. A atitude do Senhor não foi debater com o inimigo ou orar pelo assunto buscando direção de Deus, mas respondeu prontamente o que a própria Escritura fala sobre ela: “Nem só de pão o homem viverá, mas de TODA a palavra de Deus”, “também está escrito” e “retira-te, Satanás, porque está escrito” (Mt 4.11). Qualquer ponto das Escrituras perde seu real valor quando é separado do seu devido lugar no pleno conjunto das verdades que compõem a verdade. “Quando se examina qualquer ensinamento, é regra sábia proceder do geral para o particular. Essa é a única maneira de não se perder de vista o bosque por causa da árvore’” (Martyn Lloyd-Jones). As piores heresias e desvios doutrinários são fundados em partes da verdade que sacrificam a verdade.Em João 5.38-40

 

Jesus condena os judeus que esquadrinhavam as Escrituras com motivação errada. Eles as investigavam porque cuidavam achar nelas a vida eterna. No entanto, elas não falam da vida eterna em si, mas de Jesus Cristo. Achando-O, achamos a vida eterna. Jesus se admira de que, embora as Escrituras dêem testemunho Dele, eles, ao examiná-las, procurando a vida eterna, não queriam ir a Ele para ter vida. Assim, fica evidente que eles não procuravam a vontade de Deus, mas sim satisfazer a vontade própria. “Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (Jo 3.36).

 

As verdades das Escrituras estão entrelaçadas entre si tendo Cristo como propósito central que dá sentido a tudo. Quando separamos algo Dele, deixa de ser verdade, no sentido exato da palavra, tornando-se apenas uma casca morta da verdade, sem conteúdo. Jesus advertiu que não se pode anular as Escrituras (Jo 10.36). Fazemos isso por preferir pontos isolados delas ou por estabelecer interpretações particulares em detrimento da própria interpretação que as Escrituras dão de si mesmas.

 

O Equilíbrio entre os Fundamentos e os Assuntos Gerais

 

É imprescindível reconhecermos que as próprias Escrituras apontam para uma hierarquia de valores entre os assuntos fundamentais e os não-fundamentais. Em Mateus 23, corrigindo os escribas e fariseus, Jesus diz que eles eram guias cegos, pois negligenciavam o que é maior e primeiro (vs 17, 19 e 26) e os preceitos mais importantes da Lei (23), coando mosquito e engolindo camelos (24). Eles não se submetiam aos ensinamentos das Escrituras, mas usavam-nas para estabelecerem seus ensinamentos. Eles usavam partes isoladas delas para sustentar as opiniões deles. Assim, invalidavam a Palavra de Deus ensinando doutrinas de homens (Mt 15 e Mc 7).

 

A direção das Escrituras nos ensina que devemos iniciar pelo fundamento – Cristo e Sua obra na cruz – para depois seguirmos para a edificação – os demais assuntos e práticas (1 Co 3.9-11). Nos assuntos fundamentais, temos que nos aprofundar e batalhar por eles (Jd 3 e 4). No entanto, somos exortados a não contender ou julgar uns aos outros pelos assuntos que não são fundamentais (Rm 14). Por isso, quando nos aferramos em assuntos não-fundamentais, tendo-os como base de salvação, ou comunhão ou ministério, perdemos facilmente o rumo da obra de Deus e passamos a edificar nossa própria obra, condenando os que pensam diferente de nós. Quando nos aferramos em assuntos isolados das Escrituras, criamos conceitos e dogmas como verdades em detrimento da verdade. Uma heresia não é uma mentira em si, mas uma verdade isolada que gera grupos facciosos em detrimento de toda a verdade e da unidade do amplo Corpo de Cristo.

 

O escritor da Carta aos Hebreus corrigiu seus leitores porque, pelo tempo que já tinham na fé, deveriam ser mestres. Devido à negligência aos princípios das Escrituras, a realidade era que eles necessitavam de que alguém voltasse a ensinar-lhes os rudimentos elementares da doutrina de Cristo para, então, prosseguirem à perfeição (Hb 5.11-14; 6.1-2). Por ignorar a coerência das Escrituras, ou tentamos avançar ignorando os fundamentos ou não avançamos por ficar dando volta neles. O equilíbrio é nos aprofundarmos nos fundamentos para avançarmos numa edificação equilibrada, que suporta as tempestades das tribulações e ventos de doutrinas.

 

A Chave para Compreendermos as Escrituras

 

Depois que Jesus morreu, dois dos Seus discípulos foram de Jerusalém para Emaús. Enquanto discutiam sobre a decepção que tiveram com a morte Dele, o próprio Jesus se aproximou e ia com eles. Os olhos deles, porém, estavam como que impedidos de reconhecê-Lo. Eles não haviam crido nas palavras que Jesus havia falado antes. “Então, lhes disse Jesus: Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! Porventura, não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória? E, começando por Moisés, discorrendo por TODOS os Profetas, expunha-lhes o que A SEU RESPEITO constava em TODAS AS ESCRITURAS” (...). “E disseram um ao outro: Porventura, não nos ardia o coração, quando ele, pelo caminho, nos falava, QUANDO NOS EXPUNHA AS ESCRITURAS?”.

 

Então, voltaram para Jerusalém e testemunharam que o Senhor ressuscitou e como falou com eles pelo caminho. Enquanto eles falavam, Jesus apareceu no meio deles. E depois de haver comido com eles disse: “São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse TUDO QUE ESTÁ ESCRITO na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então, lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras”.

 

O entendimento deles se abriu depois que viram, pela exposição das Escrituras, que a essência da Lei, dos Profetas e dos Salmos era revelar Cristo e Sua obra. Que coisa gloriosa: a Palavra encarnada revelando o segredo para entendermos a palavra escrita! O sentido da Palavra escrita é revelá-Lo. Logo, chegar-se a ela para encontrá-Lo é a chave para entendê-la. O ministrar Cristo expondo a Palavra faz arder os corações dos ouvintes e lhes abre o entendimento para conhecê-Lo. Precisamos crer que o Espírito Santo atua quando procuramos Cristo nas Escrituras. O ir a Cristo, sujeitando nosso coração ao Espírito para conhecê-Lo, é o segredo para entrarmos nos tesouros escondidos por detrás das letras.

 

Com a revelação de Cristo, os discípulos entenderam que em Seu nome eles deveriam pregar o arrependimento para remissão de pecados a todas as nações. Eles se tornaram as testemunhas de Jesus, expondo-O pelas Escrituras. Esse é o sentido de ministério que Deus deseja que alcancemos.

 

E assim a igreja em Jerusalém perseverava na doutrina dos apóstolos (At 2.42). Mas em que consiste essa doutrina? Em pregar Cristo, Seus feitos e Suas palavras pelo poder do Espírito Santo. “Todos os dias, no templo e de casa em casa, não cessavam de ensinar e de pregar Jesus, o Cristo” (At 5.42).

 

Quando tiramos nossos olhos de Cristo, impomos nosso Eu e nossas opiniões se tornam referência ao nos achegarmos às Escrituras. Buscamos nelas confirmação ao que já concluímos. Quando nos colocamos acima delas e não abaixo, o Espírito da palavra se ausenta e no lugar de luz temos trevas.

 

É em Cristo que estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência (Cl 2.2-3). Quando humildemente vamos às Escrituras para conhecer a Cristo, o Espírito da palavra nos toma pelas mãos e nos adentra pelas portas de Sua revelação e, Nele, coloca diante de nós Seus tesouros celestiais. Vendo Cristo, temos luz para tudo aquilo que é trevas para a mente humana. O orgulho projeta o Eu diante de Deus e fecha as portas dos céus. Chegar-se à Bíblia arrogantemente, com motivação errada, torna-a um livro morto cheio de contradições. As Escrituras nunca vão se contradizer, exceto para a mente entenebrecida pelo orgulho, presa em raciocínios e deduções carnais. O Pai oculta Seus segredos aos sábios e entendidos segundo a carne e os revela aos pequeninos (Mt 11.25).

 

Precisamos humildemente nos achegar às Escrituras tendo-as como a palavra perfeita de Deus que se interpreta a si mesma. O correto é irmos às Escrituras como meio de cultivarmos o relacionamento com Deus. Devemos ir a elas não para confrontá-las, mas para sermos confrontados por elas. É arrogância humana achar que podemos estudar a Palavra de Deus sem relacionamento com Deus. Se nos achegarmos a elas em oração, para termos comunhão com Ele, sem preconceito, sem impor nossas preferências, então poderemos ser guiados pelo mesmo Espírito que as inspirou e compreender Suas verdades.

 

Outra chave para compreendermos as Escrituras é entendermos que a revelação da Palavra é progressiva. O pensamento das Escrituras foi crescendo pela história através do relacionamento de Deus com Seus filhos. Em Gênesis temos a semente, nos profetas seu cultivo, nos Evangelhos seu fruto, que é Cristo, nas Epístolas a multiplicação do fruto na Igreja, e em Apocalipse a colheita. Do mesmo modo, o cristão deve ser fiel à revelação básica de Cristo na Palavra, antes de querer entrar no estágio mais avançado. As crianças necessitam de leite, não de alimento sólido. Deste modo, é extremamente necessário ao que estuda a Palavra não avançar desordenadamente em seus assuntos, mas sim procurar ser conduzido por ela na medida em que a própria revelação vai abrindo novas facetas. Como uma flor se abre de botão em botão, até abrir-se plenamente, assim é a revelação da Palavra: luz após luz até vermos plenamente a culminação do mistério de Deus em Cristo. Não podemos queimar etapas.

 

O Espírito da Palavra e Nossa Responsabilidade em Seguir a Verdade

 

O Espírito Santo é o Espírito da verdade. Seu ministério maior é glorificar a Cristo pela edificação da Igreja, através do ministério da palavra. No entanto, isso só é possível quando seguimos a verdade das Escrituras em amor. Assim, crescemos em tudo Naquele que é a cabeça, Cristo (Ef 4.11-16). Logo, somos responsáveis, como Igreja, por provar qual o espírito está atuando pelos que falam a palavra: se é o da verdade, que ressalta Jesus Cristo, ou o do anticristo, que obscurece Jesus (1 Jo 4). Como povo de Deus, precisamos ser como os nobres bereanos: receber com bom grado a mensagem da Palavra de Deus, porém examinando nas Escrituras se tudo está de acordo com elas (At 17.11). A igreja em Éfeso foi louvada pelo Senhor porque provou os que a si mesmos se diziam ser apóstolos e não eram (Ap 2.2).

 

Por que cada vez mais o misticismo, o liberalismo e o pragmatismo têm arrastado multidões do povo de Deus para longe da essência das Escrituras? Porque, sutilmente, ao se buscar obsessivamente o crescimento da igreja e o bem-estar do homem tem-se adotado métodos que anulam as Escrituras, projetando-se um estilo de liderança autoritária cujos ensinamentos estão acima delas. Assim, atraem-se as pessoas, enquanto se expulsa Cristo.

 

As Escrituras falam por si mesmas toda a vontade e direção de Deus, e ir além do que está escrito (1 Co 4.6) é extrapolar os limites do governo de Deus, deslizando-se nos abismos da apostasia. Quando perdemos de vista Seu propósito eterno, restringimos a esfera da obra de Deus ao nosso momentâneo tempo e nos isolamos em nosso pequeno círculo de ação. Quando a Igreja perde sua identidade nas Escrituras, passa a ter um fim em si mesma. Ela deixa de ser o testemunho do Senhor e passa a ser um movimento humano. Todo ministério e movimento que estejam centralizando-se no bem-estar do homem tiram a Cristo de foco por anular as Escrituras.

 

O Desafio do nosso Tempo

 

“Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios” (1 Tm 4.1). “Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis” (2 Tm 3.1). “Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas” (2 Tm 4.2-4).

 

Os tempos em que vivemos nos desafiam a voltarmos ao rumo do propósito central de Deus em Cristo, firmados nos fundamentos do Evangelho da graça de Deus. Os ventos de doutrina soprados por Satanás têm enredado líderes a serem ministros de assuntos de particular interpretação, gerando “igrejas” partidaristas. Deus levanta líderes em sua casa como ministros de Cristo que ministrem Cristo e O centralizem, pela exposição das Escrituras, em qualquer assunto espiritual. Devemos seguir o exemplo de Paulo, que nada quis saber entre os coríntios a não ser Cristo e esse crucificado (1 Co 2.1-5).

 

Um experimentado servo de Deus sabe que todos os variados problemas na Igreja e dúvidas quanto à vontade de Deus em assuntos diversos somente encontram solução e resposta quando são encabeçados em Cristo segundo as Escrituras. Deus constituiu a Cristo como a centralidade e totalidade da Sua obra e o sentido de todas as coisas espirituais (1 Co 2.1-5).

 

Todos os problemas do povo de Deus nascem do fato de nos desviarmos, primeiramente, de Deus, de Seu propósito em Cristo e de Sua Palavra como um todo. Os judeus liam as Escrituras com um véu de separação no coração por não virem a Cristo nas Escrituras, que era o propósito final da Lei; eles continuaram nas sombras da Lei e não entraram na realidade que ela apontava (2 Co 3.14). Nesse tempo do fim nosso desafio é voltarmos à pregação pura das Escrituras demonstrando a vontade de Deus em Cristo. Somente assim o véu da religiosidade se rasgará e passaremos a contemplar Sua glória. Contemplando Cristo pela revelação da Palavra somos transformados, de glória em glória, na Sua própria imagem. É o Senhor mesmo quem faz isso, pelo Seu Espírito que vive e se move em nós com esse propósito (vs 17-18).

 

Ousemos andar somente de acordo com as Escrituras. Não nos movamos por modismos. Creiamos que o relógio de Deus que faz movimentar Sua obra neste universo está de acordo com os ponteiros das Escrituras. Elas sinalizam em que tempo estamos, os perigos que temos que evitar e a direção segura que temos que seguir.

 

Autor: Gerson Lima

Escrito em Monte Mor, SP, em 22 de dezembro de 2007, como artigo para a www.revistaimpacto.com. Os direitos são do autor. Permite-se a reprodução total e a distribuição gratuita, desde que seja integralmente e mencionada a fonte.

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