“Vós não estais na carne, mas no Espírito, se, de fato, o Espírito de Deus habita em vós. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é Dele” - Rm 8.9 (Revista e Atualizada).

 

“Vós não estais em carne, mas em espírito, se é que espírito de Deus habita em vós. Mas se alguém não tem espírito de Cristo, esse não é um dos Seus” - Rm 8.9. (Tradução literal do texto grego).

 

I. Como Se Manifesta o Caráter

 

II. O Espírito Manifestado em Cristo

 

1. Simplicidade

2. Serenidade

3. Sensibilidade

 

III. Onde Aplicamos o Teste?

 

1. O Teste da Adversidade

2. O Teste da Prosperidade

3. O Teste da Obscuridade

4. O Teste da Popularidade

5. O Teste da Derrota

6. O Teste da Vitória

 

IV. Imitação ou Reprodução?

 

V. A Importância do Nosso Espírito

 

VI. Do Centro Para a Circunferência

 

Olhando com cuidado o versículo acima na sua inteireza, logo descobrimos uma mudança importante e sugestiva nas suas expressões: “O Espírito de Deus” e “o Espírito de Cristo”. Cada uma dessas frases se refere Àquele que chamamos de Parácleto (Espírito Santo). Esse fato torna a mudança na forma de expressão ainda mais impressionante. A segunda frase tem sido tratada como se referisse apenas ao temperamento e tendência de Cristo, de tal forma que alguém poderia ler assim: “Se alguém não tem a tendência de Cristo, ele não é nenhum dos Seus”. Ao mesmo tempo em que acredito que essa interpretação não é final, eu creio também que esse é o motivo da mudança de expressão. Embora a referência seja sem dúvida ao Espírito Santo na segunda parte do versículo, como é na primeira, o escritor na segunda parte nos coloca de frente com o fato de que o Espírito de Habitação de Deus produz a mente de Cristo. Falando do Espírito como a força dinâmica da vida, ele usa a frase “o Espírito de Deus”. Quando trata com o resultado manifesto no caráter, ele usa a frase “o Espírito de Cristo”. A primeira nos fala do segredo invisível e secreto, o Espírito de Habitação de Deus. A outra nos fala do resultado visível e manifestado, o Espírito de Cristo.

 

O grande segredo da beleza e glória da vida de Jesus de Nazaré foi que Ele viveu em comunhão com o Espírito de Deus. Nascido do Espírito, sustentado pelo Espírito, conduzido pelo Espírito ao deserto, voltou no poder do Espírito para realizar Sua obra, até que, “através do Espírito Eterno Se ofereceu imaculado a Deus” (Hb 9). Ele viveu em constante cooperação com o Espírito de habitação de Deus, sem nunca O resistir, entristecer ou apagar. Qual foi o resultado de tal viver? O Espírito de Deus Se tornou manifesto no Espírito de Jesus. Embora a frase se refira à Pessoa real do Espírito Santo, ela se refere também àquela Pessoa na manifestação do caráter trabalhado na mente, no temperamento e na tendência de Cristo. Estas duas frases nos levam à consideração do visível e do invisível na vida e no caráter cristão.

 

Com reverência e cuidado vamos considerar a metade do versículo, para testar o nosso cristianismo, nos colocando dentro das medidas que ele nos sugere, submetendo nossas vidas ao equilíbrio proposto, a fim de descobrir se temos ou não o Espírito de Cristo. A ausência do Espírito de Cristo demonstra a ausência do Espírito de Deus. A presença do Espírito de Cristo prova a presença do Espírito de Deus. Assim, esta parte do texto que parece tão simples, se inunda de luz e é um dos testes mais penetrantes em todos os escritos apostólicos.

 

I. Como Se Manifesta o Caráter

 

Quero dizer uma ou duas palavras preliminares sobre a questão da importância e da natureza do caráter. O caráter de um homem é manifestado através do seu espírito, por meio do seu temperamento e índole. Não podemos expressar o caráter através de palavras, nem por meio de qualquer ação particular. O caráter de um homem não pode ser decidido pelas palavras que ele diz, nem ser descoberto pelas coisas ocasionais que ele faz. O homem mais medíocre pode dar as maiores ofertas para fins filantrópicos, e o homem mais generoso pode não ter nada para dar. O santo pode ser descoberto uma e outra vez em algum tipo de palavreado indigno. O homem mais vulgar pode proferir palavras de santidade. O caráter do homem é sempre revelado por sua índole. O caráter é aquilo que o homem é. Fazer, falar, possuir, nada tem de bem-aventurança. No Sermão do Monte (Mt 5) o “ser” é coroado com a coroa das sete bem aventuranças. Portanto, entenda-se perfeitamente que a verdade final sobre o caráter de um homem só é conhecida por Deus. Homem nenhum pode conhecer a verdade sobre o caráter do seu próximo. O exame que eu sugiro para minha alma e a sua na presença desse texto, não é uma inquisição ou investigação da minha alma por outra alma, ou da sua alma e a do pregador. Chegamos juntos à presença dessa declaração, a fim de que somente entre nós e Deus, possamos descobrir se pertencemos a Cristo ou não. Examinemos, portanto, o que foi o Espírito de Jesus.

 

II. O Espírito Manifestado em Cristo

 

Queremos descobrir a mente, o temperamento e a tendência de Cristo; a qualidade do Espírito de Deus conforme foi revelado através de Cristo. E para fazer isso devemos considerar o espírito do Homem de Nazaré. Esquecendo no momento o fato supremo de que o espírito que Ele manifestou era o Espírito de Deus, pois Nele a Deidade foi revelada, chegamos ao nível humano e perguntamos: Qual era a mente de Jesus? Quais eram suas impressões e qualidades? Você logo descobre que uma pergunta foi feita de difícil resposta, pois como é possível expressar a verdade sobre o Espírito de Cristo com poucas palavras e com precisão? Pergunte-me sobre Suas palavras e eu posso dar informações materiais sobre elas, reconhecendo mais e mais os valores espirituais intensos delas e minha incapacidade para sondar suas maiores profundezas. Pergunte-me sobre Seus feitos, e eu posso segui-Lo de lugar a lugar e falar sobre o que Ele realizou. Mas ver o Espírito de Cristo é mais difícil.

 

1. Simplicidade

 

Em primeiro lugar me impressiona muito o fato do Espírito de Cristo ter se caracterizado mais pela simplicidade do que pela complexidade; mais pela serenidade do que pela agitação e pela sensibilidade mais do que pela dureza. Permita-me tentar ilustrar o que entendo por simplicidade. Nada me impressiona mais quando leio a história de Jesus do que o fato Dele nunca ter tido que Se preparar para qualquer ocasião. Ele era sempre o mesmo: transparente, natural, simples.

 

A complexidade pode ser definida por outro termo: hipocrisia. O Espírito de Jesus era totalmente isento disso em qualquer forma. Sua vida era simples e não tinha qualquer desvio nem iniqüidade. Com uma naturalidade que arrebata, Ele falou das coisas da Sua vida interior na presença dos homens. Ele disse coisas que nos lábios de outros homens teriam soado como a própria essência do egoísmo. Entretanto, em Sua própria era, as coisas que Ele disse não surpreenderam. Estando um dia no meio de uma multidão crítica e hostil, Jesus disse: “Eu sempre faço as coisas que agradam a meu Pai”. Imagine qualquer outro homem dizendo isso e que o homem da sua imaginação seja o líder mais espiritual: qual seria o resultado produzido em sua mente? Daquele momento em diante você começaria a questionar sua sinceridade. Mas o resultado dessa declaração foi: “Quando falou estas coisas, muitos creram nele”.

 

Esse foi o resultado da transparente simplicidade e honestidade de Jesus. Podemos colocar a questão de outra forma totalmente diferente, expressando-a de forma mais plena em Suas próprias palavras: “Eu Sou a Verdade”. Ele quis dizer: “Eu não prego, ensino faço exposição dela, nem mesmo a retenho; ‘Eu Sou a Verdade’.” Havia harmonia perfeita entre todos os lados da Sua natureza. Ele não tinha um quarto oculto, nada secreto. Quando O vejo em toda a história da Sua vida, fico grandemente impressionado com a simplicidade do Seu Espírito. Não preciso parar para dizer que simplicidade não significa superficialidade e sim transparência. Se você pode pensar numa grande piscina sobre as rochas, é simples quando você pode ver através da águas límpidas todas as coisas que estão no fundo. O Espírito de Jesus, a tendência de Jesus, era de transparência absoluta e transparente.

 

2. Serenidade

 

Fico profundamente impressionado com a serenidade de Jesus, porque nas horas em que todos os outros seriam abatidos pelas tempestades, ou movidos pela agitação, só Ele ficava tranqüilo, calmo e cheio de dignidade. Se aquela grande declaração da Escritura “aquele que crê não se apresse” teve cumprimento na vida humana, foi na vida de Jesus. Se houve uma hora em Sua vida quando alguém poderia esperar vê-Lo movido pela tempestade, foi quando Ele se aproximou da Cruz. Entretanto, que homem calmo, honrado e controlado foi Jesus. O Procurador Romano, acostumado a cenas desse tipo, capacitado a esmagar rebeliões, ficou bastante perturbado. Os sacerdotes se agitaram irados. A multidão, instável como sempre, clamava por sangue. Mas o Espírito de Cristo era de silêncio, calma e serenidade.

 

3. Sensibilidade

 

Jesus entrou na presença da emoção não natural da qual Ele não participava. Na presença da alegria Ele se alegrava; na presença da tristeza Ele Se enchia de tristeza; se estivesse diante dos abatidos, como aquela mãe viúva quando seguia seu filho único para ser enterrado, toda a tristeza da vida dela penetrava na vida Dele; se ia numa festa de casamento, toda a felicidade e alegria se faziam presentes em Seu próprio coração. Ele era real e profundamente sensível.

 

Estas são verdades sobre o Espírito de Deus, verdades sobre o próprio Deus. “Nele não há trevas nenhumas”. A natureza e método total de Deus são de simplicidade profunda e quase irresistível. Deus não está sempre mudando como o homem. Ele permanece imutável durante todo o processo da mutação humana. Ele é para sempre um fogo destruindo ou purificando, de acordo com a natureza daquilo que entra no Seu alcance. Ele é para sempre o sol da vida, produzindo fruto se tocar numa árvore plantada junto a ribeiros de água, ou queimando se tocar no mato seco.

 

Não preciso me deter para argumentar sobre a serenidade de Deus. O fato é que no dia da catástrofe Ele não é tocado nem amedrontado. “Ele não falhará nem desanimará até que estabeleça o juízo na terra”, até que estabeleça Sua lei nos assuntos dos homens. Nós ficamos desanimados, ficamos cheios de agitação descontrolada e temos que demonstrar a fim de fazer as pessoas crerem. A serenidade de Jesus era a serenidade do Espírito de Deus, que é a serenidade de Deus. Além do mais, a sensibilidade de Jesus era a sensibilidade do Espírito de Deus e a sensibilidade do próprio Deus. Faber falou a verdade ao cantar que as tristezas da terra são sentidas no céu. Eu me aventuro dizendo que as alegrias da terra alegram o coração de Deus.

 

Foi esse o Espírito que Cristo manifestou: simplicidade, serenidade e sensibilidade. Se nos falta isso, então nos falta o Espírito de Cristo. Se não temos o Espírito de Cristo é porque não temos o Espírito de Deus, pois Ele sempre produz estas manifestações. “Se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é Dele”.

 

III. Onde Aplicaremos o Teste?

 

Devemos entender que os testes de Deus nunca são especiais, nem anunciados previamente. Todo método de exame humano é inteiramente diferente do método do exame Divino. Não temos como nos preparar devidamente para os testes do espírito, porque não tomamos conhecimento deles antecipadamente. Somos provados na trajetória comum da vida humana, ou quem sabe em alguma crise repentina. Se a crise for esperada ela deixa de ser um dia de teste. Na caminhada comum de cada dia é que devo descobrir que espécie de espírito é o meu. Devo descobrir neste salão, não nesta noite, se tenho o Espírito de Cristo ou não; é impossível fazer isso aqui. Isso deve ser feito amanhã, em meu lar, em meu escritório. O espírito do homem é testado na adversidade ou na prosperidade, no lugar de obscuridade ou no lugar de popularidade, no lugar da derrota ou no lugar da vitória, e mui freqüentemente, em meio aos milhares de pequenos detalhes das horas em que estamos ocupados. Vejamos em termos gerais, como nossos espíritos são provados em tais circunstâncias.

 

1. O Teste da Adversidade

 

É hora de adversidade; as tempestades estão soprando e somos inclinados a dizer como Jó do passado: todas estas coisas estão contra mim. Essa é a hora em que o espírito do homem é testado. Um homem numa hora como esta se entrega ao desespero e abandona a luta. Outro se mostra paciente por meio de sua tranqüila perseverança. Um fica irritado, nervoso e queixoso. O outro fica quieto e em paz. Qual é a diferença? É a diferença de espírito. É a diferença do temperamento e da tendência. Um está vivendo na carne; o outro está vivendo no espírito.

 

2. O Teste da Prosperidade

 

Imaginemos que seja a hora da prosperidade quando tudo vai bem. Tudo o que é tocado se transforma em ouro e o sucesso se manifesta por todo lado. Esse é o lugar em que o espírito é testado. Nessa hora um homem se torna manifesto por sua arrogância, sua tendência dominadora, seu desprezo pelo homem que fracassa. Outro homem nessa mesma hora se caracteriza pela beneficência e um desejo de estender ajuda àquele que está se esforçando. Um faz da sua prosperidade o trono de onde ele tritura seu semelhante abaixo dele; o outro torna sua prosperidade motivo para compartilhar sua hospitalidade com seu vizinho. Qual é a diferença? A diferença da tendência. Posso dizer que nenhum homem pode evitar o que faz, porque ele faz o que ele é. Ele e seu caráter estão sendo manifestados.

 

3. O Teste da Obscuridade

 

Aqui estão dois homens, ambos numa posição de serviço visível. Repentinamente os dois são removidos desse lugar para um lugar escondido. Foi o que aconteceu com Filipe ao ser tirado da urgência e glória de um grande avivamento em Samaria para a solidão do deserto, a fim de falar a um homem em sua carruagem. Numa tal situação um manifesta amargura, reclama que o destino está contra ele, que os homens não o apreciam e passa todos os seus dias murmurando contra a dureza da sua sorte. Outro encara o deserto e ali espalha a fragrância de um contentamento doce. Ele não está gastando sua doçura no ar do deserto. Nunca se cometeu um erro desse tipo. A doçura nunca é desperdiçada, mesmo no ar do deserto. Se algum pássaro em seu vôo deixa cair uma semente em um solo fértil e ela chega a brotar, se isso não for visto por nenhum olho humano, Deus colhe a fragrância que Lhe é doce e linda. Qual é a diferença entre estes dois homens? É a diferença de espírito.

 

4. O Teste da Popularidade

 

Pode ser o oposto. Um homem é levado da obscuridade para a popularidade, para usar a palavra do mundo, e imediatamente ele se torna orgulhoso e distante, se alegrando sempre no fato de ter se tornado popular. Outro é colocado na mesma posição e traz com ele toda a simplicidade e humildade. A humildade nunca se mostra. O homem que diz estar servindo a Deus em sua maneira humilde é o homem mais orgulhoso. A humildade, à semelhança do amor, “não se vangloria, não se ensoberbece, não se conduz de modo inconveniente” (1Co 13.4,5). Na luz do sucesso manifesto o homem que tem o Espírito de Cristo é simples, amável, aliviando o esgotamento dos homens, curando suas feridas e os ajudando.

 

5. O Teste da Derrota

 

E se for tempo de derrota? Um homem se torna covarde e o outro um herói. Um herói na derrota, você diz. Sim, corretamente. É preciso mais heroísmo para sofrer a derrota do que para ganhar a vitória. Existe um ar de dignidade em alguns homens na hora da derrota. Quando alguém tenta lamentar por eles, ou mostrar suas condolências a eles, não conseguem realizar nenhuma das duas, por causa do heroísmo com que tais homens sofrem a derrota.

 

6. O Teste da Vitória

 

Pode ser a hora da vitória. Um homem se torna um tirano e o outro manifesta a mais pura bondade. Ou então, mais freqüentemente, entre os milhares de detalhes da vida, o nosso tipo de espírito se manifestará em meio às coisinhas da nossa própria vida do lar, mais do que em qualquer outro lugar. Acho melhor deixar que você mesmo faça as aplicações. O café atrasado pode testar se você é um cristão, mais do que o louvor na congregação. Não digo isso para fazer ninguém rir. Se você está rindo da sua própria tolice, arrependa-se disso. Procure entender o fato de que o homem é revelado, não no púlpito público; não, ali você não pode conhecê-lo. Ele se manifesta nos pequenos incidentes da sua vida no lar. Existem homens que dariam colunas e mais colunas de notícias nos jornais, mas se pudéssemos ouvir a história contada por suas esposas (e nunca podemos, pois a mulher é heroína), nós os conheceríamos como não-cristãos, a despeito de tudo o que os jornais dizem. É o espírito, o temperamento, a tendência que é suprema. Não é: se alguém não tem o credo, o ponto de vista ortodoxo. Não! “Se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse não é dele”.

 

Como já disse, não estou levando você diante de um tribunal, como se eu fosse o juiz. De modo nenhum! Eu sou um pecador. Não estou pedindo que você aceite a opinião do amigo ou vizinho. Eu não aceitaria sua opinião; não me importo com ela. Não dependo em nada dela. Perdi todo o medo daquilo que você diz ou pensa a meu respeito. Mas no santuário secreto e interior da minha vida eu me coloco na presença do Tribunal de Cristo, e sei que meu relacionamento com Cristo é provado pelo meu espírito.

 

Não creio que eu ousaria chegar a esse texto se não fosse pela primeira parte dele que já consideramos anteriormente: “Vós não estais na carne, mas no espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós”. Volto a ele porque existem aqueles que estão dizendo: “Tal trono de juízo nos condena! Se nosso cristianismo deve ser provado não pelo nosso credo, mas pelo nosso espírito, então somos culpados”. Existem aqueles que agora estão perguntando: “Como podemos ter esse Espírito de Cristo? Como podemos nos tornar como Ele? Como podemos nos livrar de toda a hipocrisia que tem arruinado nossas vidas e encontrar um caminho para a simplicidade da verdade absoluta? Como podemos ser livrados dos costumes covardes que nos fazem mentir na educada sociedade e achar a direção para o caminho estreito e duradouro da verdade simples? Como podemos achar o caminho que nos livra do pânico que tão freqüentemente nos arrebata, da agitação que nos torna impulsivos e nos levam a falhar, para dentro da serenidade tranqüila e elevada do Espírito de Cristo? Como podemos escapar da insensibilidade que por tanto tempo nos tem tornado incapazes de derramar lágrimas na presença da dor ou de rir na presença da alegria? Como podemos escapar do espírito do ego-centralizado, da vida dominada pela carne e achar o espírito que é o espírito da vida centralizada em Deus”?

 

A resposta é: “Vós não estais na carne, mas no espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós”. Lembre-se que eu digo respeitosamente aos jovens que estão lutando pelo ideal, vendo-o em sua beleza: vocês não podem criar esse tipo de espírito por meio do governo que vem do exterior. Dizer que você nunca mais vai pronunciar uma palavra indelicada não criará tal tipo de espírito. Mais cedo ou mais tarde o fato real se manifestará novamente. Se seu espírito é indelicado, você pode dominar sua língua e evitar a palavra envenenada por muito tempo, por causa do respeito próprio, mas a hora da provocação chegará e ela se manifestará. O simples governo do que é exterior nunca pode produzir as coisas do espírito.

 

IV. Imitação ou Reprodução?

 

Vou um passo além. Não é pela admiração ou imitação que a reprodução resultará nas questões do espírito. Ali está a visão gloriosa do Cristo simples, sereno e sensível. Eu a admiro. Vou torná-la meu exemplo. Tal atitude como essa nunca produzirá a semelhança com Ele. O homem que tenta imitar a Cristo só colherá amargos desapontamentos, caso as condições necessárias não sejam preenchidas.

 

Como posso então ter o Espírito de Cristo? Só pelo Espírito de Deus. Ele é o único que pode reproduzir o Espírito de Cristo. “O fruto do Espírito é amor” (Gl 5.22). A menos que o Espírito de Deus esteja presente, o Espírito de Cristo nunca será visto. A menos que o Espírito invisível esteja lá, o Espírito manifestado estará ausente. Para termos o Espírito de Cristo, precisamos do Espírito de Deus. É Ele Quem ilumina a visão, permitindo que vejamos o ideal e que faz ainda mais ao suprir o poder para podermos imitar o ideal. O Espírito de Habitação de Deus transforma o espírito do homem até se tornar semelhante ao Espírito de Cristo. Vocês já viram homens violentos e indelicados se tornarem gentis e pacientes por causa da habitação do Espírito de Deus?

 

V. A Importância do Nosso Espírito

 

Finalmente, lembremos que a questão de suprema importância é a do nosso espírito. Qual é a sua tendência? Quantas vezes o homem culpa seu pai pela sua tendência. Quantos dizem: “Tudo está contra mim; herdei isso do meu pai”. É absolutamente falsa a declaração de que “os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos embotaram”. Este provérbio se tornou popular quando Israel se assentou junto aos rios de Babilônia e lamentou pelos pecados dos seus pais, até que Ezequiel e Jeremias declararam: “Nunca mais tereis ocasião de usar este provérbio em Israel”. Se os seus dentes embotaram é porque vocês mesmos comeram uvas verdes! Eu admito a sua tendência má, mas lembre-se disso: ela pode ser mudada! Se não for assim eu não tenho nenhum Evangelho. No lugar dela pode estar o próprio Espírito de Cristo. É importante aquilo que o homem crê ou não crê; mas estas coisas só são importantes quando manifestadas nas obras. A crença que não desabrocha em conduta e se torna um caráter benevolente, não tem qualquer valor. É o espírito que importa e se isso é verdadeiro, quantas coisas não cristãs são feitas no nome de Cristo. Já vi a pregação da fé ortodoxa desviar pessoas de Cristo.

 

VI. Do Centro Para a Circunferência

 

Freqüentemente procuramos corrigir o centro partindo da circunferência; mas precisamos corrigir a circunferência partindo do centro, entregando nossa vida inteira ao próprio Cristo e recebendo assim o Espírito de Deus. Quando o Espírito de Deus está entronizado, não vivemos mais na carne e sim no espírito. Depois, pouco a pouco virá a plena frutificação do caráter cristão, pois este não alcança a perfeição num instante: “Primeiro a espiga, depois o grão e finalmente o grão cheio na espiga”. Mas quando o Espírito de Deus está na vida, existe a primeira promessa do Espírito de Cristo, e cresceremos “em todas as coisas Naquele que é a Cabeça”. Eu insisto para que todos cheguem a esse tribunal sozinho, depois que a voz do pregador silenciar e terminar o seu contato dentro do santuário. Com o nosso Novo Testamento, e sozinhos, perguntemos se temos o Espírito de Cristo. Se não temos é porque não temos o Espírito de Deus. Sabendo isso, procuremos coroar a Cristo confiando Nele e receber desse modo Seu Espírito para nos tornarmos como Ele.

 

Autor: G. Campbell Morgan

Tradução de: Delcio Meireles

 

Nota do Tradutor

 

O Texto de Romanos 8.9 no Grego:

 

O autor afirma que o texto de Romanos 8.9 se refere à Pessoa do Espírito Santo, mas em sua mensagem ele deixa claro que “o Espírito de Deus” é o único que pode produzir no crente “o Espírito de Cristo”, isto é, um espírito semelhante ao que foi manifestado em Cristo. Nada pode ser realizado em nós interiormente sem a ação do Espírito de Deus, mas o fato das expressões “o Espírito de Deus” e “o Espírito de Cristo” não serem precedidas do artigo “o” no original, indica que a referência não é à Pessoa do Espírito Santo. Se lembrarmos que Ele está comparando nossa posição anterior “na carne” com a nossa posição atual “no espírito”, o argumento fica mais claro. Está escrito que “aquele que é nascido da carne é carne e o que é nascido do (de+o) Espírito é espírito” (Jo 3.6). Quem nasce do (de+o) Espírito também nasce “de Deus” (Jo 1.12,13). Portanto, o Espírito Santo gera em nós um novo espírito, nascido de Deus, que é a nossa nova natureza. Pelo fato dele ter nascido de Deus, parece lógico que ele seja chamado de “espírito de Deus”, como vemos em Romanos 8.9. Esse novo espírito “nascido de Deus” deve ter as características do “espírito” de Cristo. 

 

O Espírito de Cristo: O Teste Principal

Dica de Livros
O Descortinar do drama da redenção
W G. Scroggie
 

 

Com Cristo na Escola de Oração
Andrew Murray
 

 

O Ministério 
do Espírito 
A. J. Gordon